Amar conhecendo o sofrimento dos outros

Amar conhecendo o sofrimento dos outros

Reflexão de: Fil 3,7-21

Objetivo: Amar conhecendo os sofrimentos dos outros. 

Nilton Bonder fala sobre a importância de saber o “que se passa na barriga do outro”. Como judeu, coloca o centro do sofrimento na barriga. Na cultura ocidental falamos do coração. Nilton fala que “não há forma de amarmos o próximo se não conhecermos o que lhe causa desconforto, sofrimento ou desgosto”. Comumente denominamos isso de COMPAIXÃO. Nela descobrimos também a palavra PAIXÃO dos passionistas e o “sofrer com”.  

O distintivo passionista tem a forma de coração, que não lembra ou significa apenas o sofrimento de Jesus, mas também o nosso e do nosso mundo. Fazemos “nosso” o sofrimento dos outros, do mundo. O objetivo é confortar e esvaziar as cruzes de todas as pessoas. Escrevi um livro sobre isso: A Cruz Habitada (que deve ser esvaziada). 

Sofrimento dos outros

Paixão vem do verbo depoente latino patior, passus sum, pati e significa sofrer não apenas com o próprio sofrimento, mas também com os sofrimentos dos outros. Saber e respeitar a dor do outro é o caminho certo para confortar e solidarizar-se. Porém, é preciso saber o que vai na barriga ou coração dos outros. Não se pode amar uma pessoa faminta, sem saber se ela está passando fome, sede, dores e doenças. Quando viermos a saber, podemos tentar ajudar e consolar. E assim o amor se torna ativo. 

Por isso, saber o que se passa na vida do outro é essencial para poder amar e ajudar e mesmo relacionar -se adequadamente com esta pessoa. Não podemos avaliar o outro sem saber o que lhe causa sofrimento, o que o limita, assusta e paralisa. Isso não deve acontecer apenas entre casais. Temos que descobrir o que faz o outro sofrer, para o amar de verdade. Cada um tem o seu próprio coração e tem suas limitações e seu modo de ver a realidade e o que o faz sofrer. Não amamos o outro apenas por aquilo que temos de igual, mas também pelo que ele tem de diferente. E assim seremos resposta “às alegrias e esperanças, às angústias e tristezas dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem…” (SC 14, VAT II).

O outro faz parte da nossa vida. Posso dizer que eu estou no outro e o outro está em mim. Veja a frase de Paulo em Gl 2,20: “Já não sou eu vivo, mas é Cristo que vive em mim”. Poderíamos dizer também: “E eu vivo em Cristo e o Cristo em mim”. Eu no outro e o outro em mim. Se eu me beneficio, o outro também se beneficiará em mim. Se o outro melhora, ele melhora também em mim. Posso identificar-me com o meu eu que está no outro. E o outro também se identificará no meu. É essa interdependência que vai sendo descoberta não só quando falamos de ecologia e destino comum, mas quando pensamos que formamos um só corpo em Cristo. 

Não somos todos iguais e em Fil 2, 5-11 se diz que devemos ter em nós “os mesmos sentimentos de Jesus, que se desdobra e entra no mundo dos homens para conhecer e perceber nossas diferenças, dores e dificuldades. O texto diz que Ele se fez igual a nós, mas mantendo as diferenças. E Ele até partilha nossas dores e compartilha nossa caminhada. Esse texto nós o repetíamos todos os dias antes das orações na capela. Queríamos fazer Jesus modelo e projeto de nossa vida no meio do mundo de hoje. Conhecer as dores do mundo e entrar no mundo para levantá-lo.  

Sofrimento do mundo

Mas, creio que o texto de Fil 3,7-21 nos faz compreender melhor como devemos estar presentes no sofrimento do mundo. Paulo está sofrendo com os problemas dos filipenses e com a falta de juízo dos que querem excluir os gentios do projeto de Jesus Cristo. Não querem entender que a missão de Jesus se dirige a todos e diz que o que realmente tem sentido é assumir as atitudes de Cristo para realizar a salvação de todos. Para isso, descobre que o que interessa agora é juntar-se a Cristo. O resto virou ESTERCO para ele. Entra no meio dos filipenses para compreendê-los, amá-los, confortá-los, tornando útil a Cruz de Cristo. O Cristo de Paulo é útil para libertar, aliviar e salvar, não apenas em sentido geral, mas na prática concreta e na vida concreta de cada um. Cristo entrou no mundo para nos entender e entra em nós para realizar o melhor para nós e em nós. 

Paulo começa aplicando isso a si mesmo para garantir a utilidade libertadora da Cruz de Cristo e sua Ressurreição: Quer estar com Ele, conhece-Lo participando de sua Ressurreição, mesmo que para isso tenha que participar de sua Paixão. Ele sabe que ainda há muito por fazer. Ainda está longe da meta, mas se empenha em conquistá-la, como o corredor que quer prosseguir na corrida e ganhar. Persegue a meta. Convida a todos os seus para que corram, seja qual o ponto onde se encontram na corrida. O que importa é prosseguir decididamente.

Por fim, ele pede que o imitem e chora, sente e se preocupa com os que estão sofrendo por errarem na vida. Sofre porque muitos se perdem pensando só na barriga e prazeres enganosos. Sabe dos desejos e paixões dos filipenses. Conhece o que os consola e anima e também o que os magoa. Sabe o que os faz sofrer e os enganos que os desanimam. Entra também aqui a palavra compaixão, o sofrer com e chorar com. Entra aqui a ideia de não querer correr sozinho, mas deve-se correr com os outros e que os outros possam correr com ele. Não quer ir sozinho, nem se beneficiar sozinho. 

Ao rezar este texto, gostaria que você repassasse no seu coração seus companheiros de comunidade, sua família, seus amigos. A intenção é perceber o que os faz sofrer, suas cruzes e dificuldades. Só conhecendo isso é que você pode amar essa gente com atitudes práticas, mudando seu modo de se relacionar, evitando o que causa mal-estar, dor e desentendimento. Seu amor se manifestará por atos práticos que respeitem as diferenças e aliviem as cruzes dos que passarem por você. Veja o que vai “na barriga ou coração” dos outros. 

Sofrimento de Cristo

No passado, pregava-se muito o sofrimento de Cristo, suas dores, morte e Ressurreição, mas pouco se tomava conhecimento do sofrimento do povo. Não é que se deva esconder o sofrimento e a cruz de Cristo, mas devemos pensar como ela pode ser útil para aliviar o peso e as cargas carregadas por nós e por nossos irmãos. Os antigos pensavam até em ajudar a “carregar a Cruz de Cristo”, como teria feito Cireneu. Isso não é necessário. Agora nos unimos a Cristo mas para carregar e aliviar a cruz do povo e a nossa. Jesus nunca disse para o ajudarmos a carregar a cruz pessoal Dele, mas que cada um de nós “PEGUE A SUA CRUZ E O SIGA”. Fica claro, não é a cruz Dele, mas A NOSSA. Ele quer até nos ajudar a carregar hoje a nossa cruz e aliviar o nosso sofrimento. Literalmente, ele deseja esvaziar a nossa cruz e aliviar as dores de toda a humanidade, se isto for para o nosso bem. 

REFLITA:

  1. Qual é a sua cruz e como você a carrega seguindo Jesus?
  2. Qual é a cruz de seus irmãos de caminhada?
  3. Você ama ativamente conhecendo e aliviando a dor do próximo?

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