Quinhentos anos de herança e semeadura

Quinhentos anos de herança e semeadura

Em 31 de outubro de 2017 foi celebrada a memória dos 500 anos da Reforma protestante. Martinho Lutero (1483-1556), frade agostiniano e professor de Teologia, pregou as 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg, em 1517, contestando a doutrina das indulgências. O Papa Leão X (1475-1521) pediu-lhe que se retratasse. Diante da recusa de Lutero, decretou, em 1520, sua excomunhão da Igreja Romana. Isto acarretou um enorme movimento de ruptura no seio da Igreja do Ocidente. Já a Igreja do Oriente se tinha separado da Igreja de Roma em 1054.

O que não dava paz a Lutero era uma questão, que ainda hoje forma a procura incessante de todo o discípulo de Cristo: a verdadeira identidade de Deus. Esta questão constituiu sua paixão profunda, seu pesadelo constante e sua busca amorosa. Característica, de fato, de sua espiritualidade foi a pergunta: “Como posso crer em um Deus misericordioso?” Tal pergunta lhe atravessava o coração e estava por detrás de toda sua pesquisa teológica e de sua luta interior. Colocar Deus no centro de sua vida e encontrar sua face misericordiosa foi a surpreendente e feliz sua descoberta espiritual. Tudo para Lutero se resumia na vivência confiante da frase paulina: “O meu justo vive pela fé” (Rm 1, 17).

Papa Francisco, em 2016, em sua visita a Lund (Suécia), a fim de comemorar os quinhentos anos da Reforma protestante, disse: “Hoje, Deus pede-nos que sejamos protagonistas da revolução da ternura“. É preciso sublinhar que a herança teológica da Reforma protestante foi assumida em cheio pelo Concílio Vaticano II (1962-1965): Cristo, único Salvador e centro de nossa vida, a importância da Bíblia, considerada o coração da Comunidade cristã, o sacerdócio universal de todos os batizados, a salvação, dom gratuito da misericórdia divina a favor de todos os seres humanos, a fé como condição necessária para agradar a Deus, enfim, a reforma permanente da Igreja, seguindo o princípio teológico: “Eclesia semper reformanda est in caput et in membris” — a Igreja é chamada a uma contínua conversão, na sua cabeça e em seus membros — (Mc 1,15; Mt 4,17; LC 4,10-19).

O que de mais precioso podemos guardar da profunda espiritualidade de Lutero é esta doce e suave certeza: só o amor de Cristo nos salva. Em segundo lugar: sua vontade é de nos reunir novamente numa só Igreja, servidora da humanidade, sobretudo, das categorias mais marginalizadas, desprezadas e esquecidas da nossa sociedade. Em terceiro lugar: é graça divina, uma honra e um privilégio imerecido seguir a Cristo, carregando sua Cruz redentora, obedecer à sua Palavra e à sua instituição, que é a Igreja. (Mt 16,18; LC 10,18).

Estas certezas de Lutero foram as mesmas que tiveram São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loyola, Santo Tomás de Aquino e hoje, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce e Dom Oscar Romero. Papa Francisco, no espírito do Concílio Vaticano II, nos convida a ressaltar mais o que nos une, do que nos divide, pois o que nos une é imensamente maior do que nos divide. Como Lutero, somos chamados a proclamar juntos: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20).

Pe Ernesto Ascione,

Paróquia Santo Antônio — São Mateus, ES.