PASTORAL DE CONSERVAÇÃO

PASTORAL DE CONSERVAÇÃO

Durante nosso último capítulo provincial (GETH), alguém me perguntou o que eu entendia por pastoral de conservação. Em breves palavras tentarei expor o que EU entendo.

É um pastoral que realiza a religião dentro dos templos, sobretudo oferecendo sacramentos e “salvando almas”. Promove cerimônias solenes com ricos paramentos e embeleza os templos, porque é lá que se pratica a religião. Ser católico é ir à missa e dar esmolas para a Igreja. O padre é o centro de tudo, com todo o clericalismo possível. O proselitismo é evidente e aumentar o número dos que frequentam a Igreja é aumentar o número de “almas salvas”. O tradicionalismo centralizador, desconhecendo a realidade das pessoas. Ele dá mais valor aos ritos do que a vida.

A pastoral conservadora muitas vezes promove uma religião individualista do “salva a tua alma”, através de uma religiosidade puritana e petista, com programas etnocênticos, isto é, promove uma cultura de um povo e a impõe aos outros, como foi feito pelos missionários no Brasil. Impõe costumes, roupas etc. A pregação não leva em conta o contexto do indivíduo, mas impõe modelos. Os missionários decoravam sermões antigos e os usavam para todos os tipos de pessoas e realidades. Isso levava à GLOBALIZAÇÃO, fazendo todos iguais e desumanizando as pessoas. Confundiam cultura com religião.  A religião era uma invasão estrangeira. A pastoral de conservação continua fazendo a mesma coisa.

A pastoral “em saída” do papa Francisco mostra que o importante é a vida e a vida em a abundância. Uma religião que não ajuda a dar sentido e vida, que não responde aos problemas das pessoas é alienante e opressora. A verdadeira pastoral leva ao SEGUIMENTO DE CRISTO. E Cristo veio pregar o REINO, não a Igreja. A verdadeira Religião de Cristo se preocupa antes COM O REINO DE DEUS E SUA JUSTIÇA, o resto será dado por acréscimo. Jesus andava pregando não tanto em sinagogas e templos, mas seguia pelos campos e cidades. Falou até que o templo se tornara um covil de ladrões. O que interessava a Cristo não era construir templos, mas, organizar a vida das pessoas e ajuda-las a viver bem. Por isso ia de encontro sobretudo dos pobres e marginalizados.

O Reino de Deus promove uma nova sociedade em que as relações entre os seres humanos sejam de serviço. Supõe a inclusão dos pobres. O Reino de Deus não é tanto a expansão do número de templos ou levar o nome da Igreja, mas, encontrar soluções e levar a ações. O Reino de Deus não é agir só dentro da Igreja, mas, deve ser uma “Igreja em saída”, aberta ao mundo. Deve sair das fronteiras e ir ao mundo exterior.  “O Espírito espera a Igreja fora de si mesma” (Comblin).

Nestes dias, o papa Francisco esteve em Mianmar e Bangladesh, por causa dos muçulmanos “rohingyas”, que foram expulsos e migraram praticamente só com o que podiam carregar nas mãos. Os migrantes eram muçulmanos, mas, o papa foi ao encontro deles não por proselitismo, mas para garantir vida e justiça. Repito, se a Igreja não procura solução para os problemas atuais da humanidade de hoje, é inútil. Não basta salvar almas.  É o homem inteiro que deve receber vida. A teologia de Santo Tomás de Aquino já não responde aos problemas sociais do mundo de hoje. Não bastam os templos bonitos com suas cerimônias. A religião se vive na prática da justiça e da verdade. A pastoral se liga ao Reino pregado por Jesus.

Retomar as intenções de Cristo é a saída. É preciso fazer acontecer o Reino. É preciso retomar a humanidade de Cristo. A pastoral de conservação esqueceu a humanidade de Cristo e ficou só com a divindade. Até mesmo nossa Senhora foi praticamente divinizada nos templos e santuários. Cristo e Maria não são mais revolucionários e humanos. No Magnificat, Maria disse que o Deus dela derrubaria do trono os poderosos e os comilões. Levantaria os pobres e os famintos. Agora, Maria é apresentada para ”amansar” o povo e subjugá-lo, quando não por interesses econômicos. A Missa já não é algo pascal, perigoso e até revolucionário.

A pastoral de conservação mitifica a ideia de padre, de bispo e de papa. O clero se torna o guardião do sistema e comanda tudo de cima para baixo, sem se comprometer com o contexto social, político, cultural e até religioso do povo leigo. É preciso retornar ao Evangelho e à “práxis” de Jesus. O pastoreio de Jesus envolve as pessoas com suas fraquezas humanas e problemas pessoais e comunitários. Ele se doava aos outros nas suas necessidades espirituais e materiais. Ele vivia entre o povo. Comia e bebia com gente menosprezada. Ele se assentava com os publicanos e pecadores e comia com eles. Ele vivia em companhia do povo e sua caminhada foi pelos vilarejos e pequenas cidades. Viveu ligado ao (ABBÁ) PAI, PROCURANDO MOSTRAR O ROSTO AMOROSO DE DEUS, no seu ser e agir humano. Integrava o povo à sua terra, defendendo os direitos de quem “não tinha direitos” e foi perseguido pela “igreja” de seu tempo. Não apequenou o ser humano. Não tornou inócua a religião

Milton Schwantes disse que precisamos provocar uma nova TORRE DE BABEL (Gn 11) para que cada UM PRESERVE sua língua, cultura e direitos e assim poder escapar dos impérios opressores, traduzidos em primeiro lugar pelos Estados Unidos. A pastoral conservadora promove o fim das diferenças e exige o modo de viver dos imperadores, o modo de viver de seu império. Globaliza tudo. Quer que adotemos os costumes, a língua (o inglês) e até o folclore dos opressores. Alguns chegam a querer rezar de novo a Missa em latim e conservar ritos, jeitos culturais, costumes pensando que isto é a pastoral de Cristo, a pastoral do Reino.

P. Eugenio Mezzomo